domingo, 12 de abril de 2009

21 de março de 2009 - Sim, eu fui de novo


Bem, a foto logo vai fazer muito sentido.

Após a primeira experiência, imaginei o que podia vir. E claro, com medo de uma experiência ruim. Nos primeiros posts, não detalhei muito sobre o que pode acontecer. Agora então vão alguns detalhes.

A experiência toda se chama burracheira. Nela, é possível ter as mirações, das quais já falei, que são as visões e sensações. Porém, dependendo do que você pode experienciar, acontece um processo chamado limpeza. Não parece ser muito agradável. Na limpeza, você pode vomitar pra caralho, ou ter uma bela duma diarréia. O sentido disso é bem metafórico. Você não tem uma limpeza atoa. Ela tá sempre ligada com o que você tá experienciando. É como se você tivesse colocando "pra fora" coisas ruins dentro de você. E o corpo usa desses dois métodos pra expulsar essas coisas ruins.

Além disso tudo, tem a chamada peia. Peia é quando você tem uma experiência MUITO ruim. Normalmente as limpezas ocorrem nela, mas não é de regra ter limpeza na peia. Enfim, quem usa drogas costuma chamar isso de "bad trip", e cagam de medo de ter uma. Já nos grupos aonde se comungam o chá, eles sabem que a peia é algo necessário. Não existe visão "ruim". Tudo é algo pra você sempre aprender mais, principalmente sobre você mesmo.

Então, é óbvio que depois da primeira experiência, que foi extremamente agradável, eu tava cagando de medo de me foder. Tinha ouvido uns relatos de gente que vomitava em si mesmo, pois tava tão inconsciente que não conseguia nem se mexer. Eu particularmente não acho que tenha vontade de me vomitar todo. Mas, acho que se for inevitável, fazer o que...

Mais sobre o processo. Cada grupo tem seus métodos. No grupo que frequento, após tomar o chá, todos se sentam, e eles mudam as luzes do ambiente pra algo mais ameno. Colocam umas músicas pra você ouvir. As músicas variam... umas batidas tribais e xamânicas, as vezes um New Age, músicas nacionais... no todo, são músicas boas. E eles são bons em ministrar as músicas. Dependendo do momento, as músicas são calmas, mais introspectivas... ou mais alegres. No final, as músicas costumam ser mais felizes, pra acordar as pessoas da burracheira.

Ocasionalmente, os condutores do processo cantam umas músicas, eles mesmos. Elas tem o nome de chamadas ou hinos. São canções criadas em momentos de inspirações das pessoas. Elas tem a intenção de inspirar visões, de mandar a burracheira embora... enfim, várias coisas.

Não vou entrar em mais detalhes, pois acho que é um ritual muito único, e cada grupo tem sua metodologia. Mas, apenas uns detalhes básicos pra se ter idéia de como se segue.

Ok, então lá estava eu, pela segunda vez. Acho que é inevitável, você se sente um tiquinho ansioso toda vez. Eu particularmente me senti, de novo. Então, comungamos o chá, sentamos em nossas cadeirinhas felizes, e vamos embora.

Dessa vez, o efeito veio bem mais rápido. Em um tempo de 20 minutos, eu comecei a ver todas aquelas coisas malucas que descrevi da primeira vez. Você vê muitas figuras geométricas, mandalas, olhos, fora umas visões mais estranhas. Enfim, quando tinha ficado uns 20 minutos nisso... ouço o mestre falar "Bem, quem quiser pode comungar o chá mais uma vez".

Acordei de súbito. "Puta que pariu, como assim?". Fiquei assustado. Eu tinha certeza que não devia ter passado mais de 40 minutos, e quando olho o relógio, já havia passado mais de UMA HORA E MEIA. O tempo simplesmente voou, e pior, eu estive consciente nesse processo todo!

Fiquei meio impressionado, pensando sobre isso. Porém, fui e tomei mais uma vez. Eu já estava sentindo um efeito forte, semelhante da primeira vez, mas quis dar uma de Rambo e deixar mais forte ainda. Faltou só a metralhadora nas mãos.

Tomei a segunda vez, e me sentei. Durante as primeiras duas horas, sentia umas vontades muito estranhas. Do tipo, abrir a boca e ficar com a cabeça pra cima. Mas abrir MUITO a boca. Eu achava isso meio esquisito, imagina o povo te olhando com a boca arregaçada pra cima. Então ficava me contendo. Mas chegou um ponto que isso começou a ficar muito forte, e eu taquei o "foda-se", e abri a boca, e minha cabeça começou a lentamente ir pra cima. Na hora, eu sentia que meu corpo queria isso, e sentia que se fizesse isso, eu ia engolir mais "energias". Sério, isso passa na sua cabeça, e no momento faz tanto sentido... você pode se questionar, ou simplesmente aceitar e ir "com a corrente" que seu corpo induz. Nesse dia aprendi que você tem que se soltar mesmo.

E então, veio uma onda MUITO forte de paralisia no meu corpo. Eu não sentia mais nada. Eu só sentia a minha boca, só os lábios. E então veio uma experiência muito bizarra. Eu sentia três coisas, ao mesmo tempo.

- Eu era uma estátua. Eu sentia a textura de pedra em torno de mim. E então, me solidifiquei. E, dentro de mim, começou a sair... eu mesmo! Era como se eu mesmo estivesse cavando por dentro de mim, e querendo sair... mas eu era todo "negro", era como se tivesse só meus contornos, e os olhos. Então fui cavando por dentro de mim, até chegar na boca... eu parei por ali, e ficava olhando tudo de dentro da minha boca...

- Eu estava sentado em um trono, e estava viajando através dele. Eu estava voando MUITO ALTO, e via nuvens, num por de sol bem alaranjado. Sabe quando o ar tá bem úmido? Meio "molhado"? Eu sentia na minha boca os pingos de ar úmido batendo, por estar muito alto. Literalmente sentia...

- Eu sentia que estava sendo "esmagado" e sentia meu corpo todo retorcido. Tá vendo aquela foto ali em cima? Vê o cara de terno e com a mala nas mãos? Eu me sentia DAQUELE JEITO.

Foi um momento muito estranho. É difícil você imaginar sendo três coisas ao mesmo tempo, mas era exatamente isso que ocorria. Não tem outro jeito de falar. Era exatamente isso.

Porém, isso não durou o tanto que eu queria. Um dos braços, que estava apoiado no braço da cadeira, começou a doer. Eu não percebi, mas tava fazendo uma força IMENSA com esse braço pra baixo. Tava uma dor muito grande, um incômodo, eu comecei a sentir tudo latejar. Eu sabia que se mexesse, aquela experiência se encerraria. Tentei ao máximo ficar quieto, mas, não teve como: mexi o braço. PUF. Tudo foi-se embora... quando olhei o braço, ele tava tão marcado, que parecia que ia se fundir com a cadeira.

Tudo que consegui nesse dia, depois disso, foi me sentir extremamente relaxado e calmo. Fiquei bem introspectivo. Não sentia vontade de falar, queria pensar. Mas no fim da sessão, conversei um pouco sobre a experiência com algumas pessoas. E então, recebi um conselho óbvio, porém que não estava seguindo:

"Você tem que buscar o sentido disso tudo que viu. Por exemplo, você virar estátua e ver pela sua boca... o que significa isso? O que você acha que significa? Você não pode simplesmente ter a experiência e deixar por aí. Tem que buscar entender".

E então, pensei muito a respeito sobre isso tudo. E vi algo que já tinha ouvido antes de outras pessoas. Eu me limito. Eu sendo a estátua, é como eu sou mesmo. Me controlo demais, estabeleço muitas regras para mim mesmo. Impeço essa "coisa" que não sei bem o que é, de sair de dentro de mim. E ela fica lá dentro, só olhando as coisas acontecerem... porém, ela se sente sufocada, literalmente "esmagada". Por isso a sensação de esmagamento. E ela vê coisas muito grandes... por isso eu me sentia no trono voando. É o que ela vê, o que ela quer que eu veja e faça.

Foi uma experiência realmente interessante. Foi um olhar bem crítico pra dentro.

E depois desse dia, tudo começou a ficar meio esquisito... coisas que irei relatando aos poucos...

DETALHE IRRELEVANTE: eu cheguei atrasado e tomei um rala. Incrível como eu sempre arranjo um jeito de dar uma atrapalhada no processo auhahuauhauh

Nenhum comentário: