
Nada como um título clichê para começar a história.
Lembra que disse em um post passado que conheci o significado "Chicote das Almas" em um dos encontros? Bem, este foi o encontro.
Background para entender como eu fui tolo. Eu tinha levado uma amiga comigo. E a gente tinha combinado de ir numa festa, depois do encontro. Em minha cabeça, os encontros sempre acabam em um determinado horário, então eu ia conseguir ir na festa tranquilo.
Porém, dias antes, Z me desafiou a tomar duas doses cheias de chá. Dizendo ele, isso iria me fazer ir o máximo possível pra dentro de mim. Que seria bem forte. Eu aceitei o desafio, claro. Pensando depois, parecia que tava tudo se encaixando pro chicote bater com toda força...
Estava lá eu pela terceira vez. Por dentro, tava me sentindo até um pouco mais "sábio", estava sendo um pouco responsável pela minha amiga. Quando você leva alguém, você é o padrinho dela, é meio que um "responsável" por ela. Então, eu me sentia "mais".
O lugar estava mais cheio que de costume. Eu me senti estranhamente mal naquele dia, devido ao número de pessoas. Coisas como essa já estavam ficando "normais" pra mim, essas sensações estranhas. Então, apenas encarei como uma abertura minha pro clima do ambiente. Nem pensei muito sobre isso.
Então, é chegada a hora do chá. Como prometido, tomei uma dose cheia do negócio. Sentei-me nas cadeiras, e lá permaneci, esperando de tudo.
... uma hora e nada. Nem um relaxamentozinho. Mas hein? Esse negócio não devia tar certo, cadê a viagem pra dentro de si? Fiquei o tempo todo esperando algo, e nada. Observava minha amiga, e ela estava parecendo se divertir muito. Fiquei feliz por ela, mas com inveja. Aquele não parecia ser meu dia.
Mais pro fim, comecei finalmente a sentir aquela mesma coisa de antes. Um relaxamento, e em seguida, muitas figuras geométricas, muita coisa. O engraçado é que eu não me dei conta de que estava vendo algo, inicialmente. Foi algo assim... "Ah nem... nada até agora... o que ser-peraí, eu tô vendo! Finalmente posso relaxar agora, eu tô vendo as figuras!"
E então relaxei, e fiquei naquele estado de ser confortável. Esse momento é legal, você esquece tudo ao seu redor. Olha só pra si. É um estado bem introspectivo.
E então despertei do nada. Acordei com tudo escuro, e pessoas indo tomar o chá de novo. Eu nem percebi que já tinha dado o tempo. Fui lá, e tomei outra dose do chá, dose cheia.
No momento que me sentei, o gosto amargo do chá parece que triplicou. Era tão forte, que eu fiz uma careta horrível. Eu senti, naquele momento, que algo estava diferente. Eu estava num estado de hiper sensibilização, e só fui perceber depois. Eu mal havia tomado a outra dose, e parecia que já tinha dado efeito, mas como se tivesse jogado uma pedra de concreto numa mesinha frágil de vidro...
E então, sentado, comecei a relaxar. E relaxar. E isso foi ficando forte. E de repente, minha audição começou a ficar alterada. A música ficou rápida, rápida demais. Meu coração batia com tanta força, parecia que tinha corrido uns 10 quarteirões sem parar. E então, eu sentia como se tivessem me "puxando" pelo peito. E quando isso acontecia, eu puxava o ar com toda a força, e ficava todo arqueado na cadeira, e quando expirava, sentia que essa "força" me soltava e eu ficava todo mole na cadeira de novo. E então, mais uma vez. E mais uma. E eu tinha consciência disso tudo. Sabia que tava caindo da cadeira. Mas então veio o pensamento "Deixa acontecer", e eu deixei...
E então, o vazio. Não sei quanto tempo fiquei desacordado. Eu poderia pensar, depois, que eu tinha desmaiado. Porém, não foi bem o que contaram. Disseram que eu caí, e comecei a debater, debater com força. E como o lugar tava cheio, óbvio que comecei a bater nas cadeiras em torno de mim, então as pessoas que ficam lá pra auxiliar, foram lá me conter. O negócio é que foram três pessoas me conter, e não conseguiam. Uma delas, inclusive, é bem forte, e depois ficou me dizendo "Você é forte hein? Que isso". Falaram que eu jogava ela longe... quem me conhece, sabe como eu sou magro. O que estava ocorrendo ali... não faço idéia.
Então, comecei a ouvir. "Yama... Yama... Yama...". E despertei um pouco. A música, era como se ela viesse em formato de espiral nos meus ouvidos. Toda retorcida. Eu sabia que tinham 3 pessoas em volta de mim, porém, sentia como se umas 10 mil mãos estivessem ao meu redor, me pegando. Eu pensei que devia ser uma das pessoas que me conhecia da internet, pra me chamar de Yama.
"Volta, volta!"
Uma voz diferente. Eu sentia que ainda tinha um pouquinho de consciência e controle, mas eu não queria voltar, seja lá pra onde fosse... então as palavras saíram de mim:
"Não, me deixa! Me deixa! Eu não quero voltar, não..."
"Volta! Volta agora! Volta!"
E então abri os olhos. Eu me vi, pela primeira vez, no chão. Mas estava todo anestesiado. E então, me vi sendo carregado. Tudo era como se fosse um filme cheio de cortes. Eu me vi no chão, e logo em seguida, me via sendo carregado. Eu não me lembro de ter fechado os olhos nesse processo. Mas não me vi sendo colocado nos braços de um dos caras, levantado...
Quando me vi de novo, estava deitado. Na minha frente, uma mulher que ajuda nos rituais, passava algo na minha testa. E então dizia "Calma, calma, é a burracheira, é assim mesmo".
É assim mesmo? Só ali então fiz idéia do que estava acontecendo. Tudo aquilo que havia vivenciado foi importante, realmente. Porém... só nesse dia eu estava vivenciando a chamada "força estranha" em todo seu esplendor. Como falavam no grupo: "As pessoas vem até aqui achando que é brincadeira, mas chega uma hora e a brincadeira não começa...". Eu finalmente tinha percebido como aquilo ali não era brincadeira...
Eu ficava deitado, e mudava de posição constantemente. Nada era agradável. Eu suava, suava bicas. Respirava com força. Minha visão, era como se tudo estivesse desfocado. Sabe quando você vê um filme, e um personagem aparece bem na frente da tela, aí algo aparece atrás, e então desfoca-se o personagem da frente pra focar no que está atrás dele? E o personagem na frente fica embaçado? Eu via TUDO daquele jeito. Se eu fixasse a visão por mais de uns 2 segundos em algo, esse algo começava a ficar distante... largo...
O som... eu ouvia tudo daquela forma que falei. Como se fosse em "espirais". Eu tenho certeza que ouvi sons nas músicas que não existiam. Eu sei que não vai ser uma boa explicação, mas em alguns momentos, a música deixava de ser em "espiral" e se tornava "Cristalina". Era como se os sons fossem sons de cristais...
Mas o pior era a sensação forte no peito e no estômago. Era como se meu estômago estivesse constantemente embrulhado. Além disso, comecei a sentir algo pior ainda. Eu, de olhos fechados, sentia como se um "manto negro" viesse pelas minhas costas, e me envolvesse. E ele me puxava, puxava com força pra algum lugar que eu não queria ir. A medida que ele me envolvia, eu sentia meu estômago piorar, e meu peito ficar mais comprimido. Então eu resistia.
Finalmente entendi do que se tratava. Aquilo não era nada estranho. Era eu mesmo. Eu estava me puxando pra dentro de mim, pra um embate. Ia entrar em contato com o pior que havia em mim. Mas, eu me sentia tão frágil! Tão fraco, tão despreparado... sentia que ia acontecer algo ruim se eu me deixasse levar.
Me firmei em pensamentos pra não ir com isso. Bem, além disso, eu xingava internamente. Pra que DIABOS eu fui tomar essa porra? Nunca mais eu venho aqui! Essa é a pior sensação do mundo! Eu parecia que estava morrendo. Não tinha muito controle sobre mim. Eu era agora apenas levado pela "força estranha". Parecia que meus movimentos não eram naturais, era como se algo "empurrasse" meu corpo a se mover. Como me arrependia de ter tomado esse chá!
Então, eventos estranhos aconteceram (é, nada estava estranho o suficiente...)
Antes de eu entrar nesse estado, uma garota começou a passar mal com muita força. Ela começou a fazer uma limpeza, e vomitava sem parar. Adivinha quem apareceu do meu lado, no colchão que eu estava?
Acordei com o mestre falando "Dá um espaço aí pra colocar ela deitada". E então, com aqueles movimentos esquisitos, saí e fiquei sentado, e ela deitou. Apaguei, e me vi olhando pra ela, e ela olhando pra mim. Ela pergunta "Você está bem?" e eu "Não". Eu sentia que queria entrar dentro dela. E pior. Sentia que ela queria também entrar dentro de mim...
Acordei depois, e via ela tentando mexer com um piercing dela. Descobri esse piercing jogado do meu lado depois... no meu bolso.
Então estava eu de olhos fechados, quando um pensamento estranho veio. "Essa menina vai pegar no meu pau". Quando abri os olhos, adivinha... a menina, de olhos fechados, apalpava minhas partes íntimas. Ela nem devia saber aonde estava. Mas foi estranho, MUITO estranho. Porque na hora, eu não senti nada sexual. Nadinha. Eu só consegui pensar "Meu Deus, se minha namorada ver isso..." e tirei a mão dela do lugar.
E então, fechei os olhos. E outro pensamento veio. "Ela vai amarrar meu cadarço". Quando abri os olhos, ela estava em vias de ir e amarrá-lo, e realmente amarrou.
A noção de tempo fica bem esquisita. Então, eu não sei se realmente "previ" que ela faria algo, ou se eu, de olhos fechados, já havia visto ela amarrar, mas sentia que aquilo não havia acontecido. Teve uns outros eventos assim.
Porém, nesse tempo todo, eu estava ainda lutando contra meu "manto negro". E eu sentia que a coisa tava ficando ruim. De súbito, um pensamento veio. "Eu posso passar mal aqui. Eu posso ficar ruim aqui. Porque eu estou seguro. Então relaxa, relaxa...", e pensava nas pessoas que estavam ali pra ajudar. E então, comecei a relaxar, a ficar melhor...
E aí começou a ficar engraçado. Porque eu sentia como se tivesse regredido. Eu era uma criança. Estava TÃO confortável ali aonde eu estava, e eu estava tão maravilhado com tudo, tão feliz... que eu respondia pessoas conversando sem ver. Por exemplo, o mestre da reunião falava "Meus queridos, hoje estamos aqui reunidos, e temos muitas pessoas que estão regressando..." e aquilo pra mim era tão comovente, que eu falava "Aaaaawnnn"... é sem controle, antes de você perceber, já falou. Ou então "Hoje temos muitos aniversariantes" e eu falava "Que lindo!"
Um evento particular foi engraçado. Uma das pessoas agradeceu aquele momento, e no fim pensei "Essa menina vai bater palma junto comigo, quer ver?" e a gente começou a bater palmas pra pessoa NA MESMA HORA! Nós, de olhos fechados, batendo palmas em unissono. Foi engraçado porque depois me falaram que as pessoas ficaram com vergonha, e começaram a bater palmas também.
Cada música, me fazia ver tudo tão colorido. Eram cores vibrantes, felizes, e tudo girava em espirais felizes, e ondas de alegria e conforto tomavam conta de mim. Eu sorria como uma criança, e tudo soava maravilhoso. Ela ainda vinha em forma de "espiral", mas era de um jeito mais suave. Foi um momento muito bom, aonde me senti aconchegado por essa "força estranha". Era como se tivessem me mostrando que ela não é só rigidez e dureza... que ela pode ser doce, como uma mãe.
Porém, lições são lições, e elas tem sua hora. E parecia que a minha era naquela hora. Começou uma música em particular, com uma batida bem ritmada. Era um 'pá pá pá pá' num ritmo tão certinho... e aquilo foi levando todo meu momento feliz, e trazendo meu amável "manto negro" de volta nas minhas costas. E ele veio com tanta força, que comecei a ficar desesperado. Eu não queria ter que enfrentar aquilo, naquele momento. Não conseguiria. Eu estava com medo, me sentia fraco, sabia que não ia conseguir enfrentar. Talvez fossem desculpas, adiando o inevitável. Mas acho que a força resolveu ser misericordiosa comigo, naquele dia. Porque, assim que o mestre disse as palavras "E por hoje encerramos a sessão", tudo isso foi-se embora, sendo varrido como areia pela maré...
Então me sentei, e me despertei. Eu olhava as pessoas, e sentia que tinha algo diferente naquele dia. Elas conversavam, mas não era uma conversa normal. Elas conversavam com força. Muita força. Era como se cuspissem um monte de palavras, sem parar. Eu fechava os olhos, e sentia como se tivesse conectado com todos eles, e com mais um monte de gente. Era como se, naquele momento, todos estivessem conectados, e falavam sem parar. Normalmente os finais de reuniões são mais tranquilos. Mas aquilo definitivamente não era "normal". Era uma conexão invisível, porém forte. Um evento realmente fascinante.
Mas eu não conseguia me levantar, ainda me sentia fraco. Ficava apenas vendo as pessoas conversarem. E aquilo me pareceu tão rotineiro. Eu normalmente sempre fico alheio as pessoas. De longe, só observando. Quando converso, sempre é muito, como se quisesse compensar pelo "tempo perdido". Mas é natural meu ficar a uma distância. E eu ri pra mim mesmo ao ver isso acontecendo de novo.
Uma coisa eu tinha certeza. Dentro de mim, existia algo muito forte, MUITO mesmo, que precisava ser enfrentado com urgência. E eu sentia que logo teria que enfrentar de novo. Pois, mesmo estas sensações tendo ido embora, eu sentia, como se fosse uma brisa, nas minhas costas, uma presença ruim... como se quisesse me lembrar de que esse manto negro ainda estava ali, esperando, pronto. Que eu não podia fugir dele.
E comecei a ficar com medo, porque não queria cair nele de novo. Precisava urgente abraçar alguém, firmar em alguém, pois sentia que ia ser levado de novo. Lembrei muito da minha namorada nessa hora, quis muito que ela estivesse lá. E então, minha amiga apareceu, foi ver como eu estava. Abracei ela, e fiquei colado nela por umas duas horas, e conversava sem parar. Aquilo que todos fizeram antes, eu fiz naquele momento, sem parar, cuspia palavras uma atrás da outra. Era como se tudo que eu falasse, já tivesse escrito, eu não tinha "pausas" entre os argumentos, tudo fluia. Quando percebi, era bem mais de 3 da manhã. E eu pretendia sair dali e ir pra uma festa ainda...
O astral veio com toda sua força nesse dia. Me senti um nada perto disso tudo. Me sentia um pouco triste por não ter conseguido me enfrentar... quem sabe quando terei uma chance dessas de novo? Não sei se foi a postura mais correta, mas foi tudo que consegui fazer naquele momento. Me sentia diante de um dragão impiedoso, armado com nada, a não ser eu mesmo.
Espero encontrar esse dragão de novo. Da próxima vez, não vou recuar.